sábado, 27 de dezembro de 2008

Cerveja


Cunhada: com a mão na barriga
E que nome?
Irmão: Um Nome? Mas ainda não nasceu.
Cunhada: Então esperamos?
Irmão: Esperamos.
Gosto de esperar.
Cunhada: E depois um nome.
Irmão: E depois um nome
Cunhada: E qual o nome?
Irmão: Não sabes esperar?
Cunhada: Não. Diz-me o nome.
Irmão: Um nome meu e também teu
Cunhada: Um nome nosso.
Irmão: O nosso nome, Sim.
Beijam-se.
(José Maria Vieira Mendes, Outro Fim)

Não é facil manter a concentração no seguimento de frases, repetições, de palavras que puxam palavras, gestos e acções. O libreto para a Ópera Outro Fim, de José Maria Vieira Mendes, com música de António Pinho Vargas (que falhou no ritmo que o texto pedia), é brilhante, ao contrário daquilo que muitos diziam nos foyers, entre flutes e pastéis de nata. Fragmentos continuados que apelam para a essência daquilo que é ser humano, o nomear as coisas, os seres, o espectro de se ser qualquer coisa mesmo quando não se é nada. "Triste o meu coração/ mais triste no dia triste / todos os dias. / Todos os dias sem nada / iguais / um atrás do outro / como páginas, papel branco. / Andam eles mas eu / não. / Falta gente, / falta vida. Outra Vida" (JMVM). Ideias articuladas com cerveja, com estações do ano, disposições variadas, alternadas. O Inverno: "Duas figuras, uma tristeza / suposições de outra coisa / que se apagam em chuva." (JMVM).
A cenografia é brilhante. Tem luz, muita luz. Muitos reflexos. O eco é constante. O público é convocado e iluminado. O vazio das molduras pede para ser preenchido. Só vemos o que sabemos. A projecção é constante. As coreografias são tectónicas. Cada ser é um continente que se mexe e abala o outro, num jogo constante de "deixas" apanhadas e trespassadas. Perdemo-nos, aqui e ali, encontramo-nos numa frase, num conjunto de ideias: deriva existencial. Cada um define o seu fim. "Aquela distanciação imprecisa que não cede a nenhuma proximidade, e também não se desfaz com a aproximação, que não surge ostensiva e prolixa quando nos aproximamos, antes se erguendo mais fechada e ameaçadora diante de nós, é a distância pintada do cenário. É isto o que confere às imagens de palco o seu carácter inigualável" (Walter Benjamin, Rua de Sentido Único). Foi isto mesmo que senti. Não gosto de cerveja. Prefiro um galão!

1 comentário:

Amet disse...

JÁ PARA O PÚBLICO. lol