segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A técnica do crítico em treze teses

"I. O crítico é um estrategista na batalha da literatura.
II. Quem não for capaz de tomar partido por uma das partes deve calar-se.
III. O crítico nada tem em comum com o comentador das épocas de arte do passado.
IV. A crítica tem de falar com a linguagem dos artistas. Porque os conceitos do cenáculo são senhas. E é apenas nas senhas que ressoa o grito de guerra.
V. A «objectividade» tem de ser sempre sacrificada ao espírito de partido, se acaso o assunto da batalha for digno disso.
VI. A crítica é uma questão moral. Se Goethe não reconheceu Hölderlin e Kleist, Beethoven e Jean-Paul, isso em nada diz respeito à sua compreensão da arte, mas sim à sua moral.
VII. Para os críticos, os seus colegas são a instância máxima. Não o público. Muito menos a posteridade.
VIII. A posteridade ou esquece ou confere fama. Só o crítico julga diante do rosto do autor.
IX. Polémica é destruir um livro em poucas frases. Quanto menos foi estudado, melhor. Só quem sabe destruir é que sabe criticar.
X. A verdadeira polémica trata um livro com tanto carinho como um canibal prepara para si um bebé.
XI. O entusiasmo pela arte é estranho ao crítico. Na sua mão, a obra de arte é a arma branca na batalha dos espíritos.
XII. A arte do crítico in nuce: criar chavões sem trair ideias. Os chavões de uma crítica insatisfatória vendem os pensamentos à moda e ao desbarato.
XIII. O público tem sempre de sofrer a injustiça e, no entanto, sentir-se invariavelmente representado pelo crítico."

(Walter Benjamin, Rua de Sentido Único)

Li. Não sou crítico.

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