segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sobre Jochen Lempert:

Passados 150 anos sobre a publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, deparamo-nos com um modelo científico que alterou muitas das suas premissas metodológicas e discursivas. A ciência pós-moderna é, segundo Jean-François Lyotard, em A Condição Pós-Moderna, a “pesquisa de instabilidades”, decorrente da crise de uma orientação determinista e positivista que garantia a acreditação de um saber legitimado em narrativas do poder sobre a natureza e sobre o homem. Um olhar sobre o discurso elaborado pelas ciências, pelo paradigma moderno, leva-nos a uma viagem por alguns dos alicerces da forma como nos relacionamos com o mundo que nos rodeia. Ainda que, na actualidade e desde há uns anos, consideremos este modelo em crise, “os grandes cientistas que estabeleceram e mapearam o campo teórico em que ainda hoje nos movemos viveram ou trabalharam entre o século XVIII e os primeiros vinte anos do século XX, de Adam Smith e Ricardo a Lavoisier e Darwin, de Max Durkheim a Max Weber e Pareto, de Humboldt e Planck a Poincaré e Einstein”, sublinha o sociólogo Boaventura Sousa Santos, em Um Discuso sobre as Ciências, livro emblemático sobre a crise de um modelo de racionalidade que presidiu a ciência moderna desde o século XVI, e a emergência de um novo paradigma de conhecimento e elaboração de discurso científico, com o inerente colapso da tradicional dicotomia ciências naturais/ciências sociais e com a aproximação progressiva às humanidades. Opta-se por uma perspectiva que prefere a compreensão do mundo à sua manipulação. Para esta nova situação, ainda segundo o sociólogo da Universidade de Coimbra, no mesmo livro, “confluem sentidos e constelações de sentidos vindos, tal qual rios, das nascentes das nossas práticas locais e arrastando consigo as areias dos nossos percursos moleculares, individuais, comunitários, sociais e planetários. Não se trata de uma amálgama de sentido (que não seria sentido mas ruído), mas antes de interacções e de intertextualidades organizadas em torno de projectos locais de conhecimento indiviso”.
A exposição de Jochen Lempert, "Trabalho de Campo", na Culturgest, é um desses tantos afluentes do conhecimento. Uma perspectiva de registo empírico aberta a diferentes horizontes de expectativas. "Nós só vemos aquilo que sabemos", máxima de Gombrich, e a maioria de nós, meros leigos, infelizmente, vê muito pouco. A não perder! Ver, ver, ver, ver... até se saber!

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