segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Decifrar

"Acabamos por nos envaidecer com subentendidos que afinal mudam tudo, como um sinal negativo colocado discretamente à frente de uma soma; esmeramo-nos, neste ou naquele passo, em fazer de uma palavra mais audiciosa o equivalente a uma piscadela de olho, ao levantar da parra, ou ao descer da máscara, logo a seguir reposta, como se nada fosse. Opera-se, então, uma triagem entre os nossos leitores; os parvos acreditam em nós; outros, supondo-nos mais néscios que eles, repudiam-nos; os que ficam, aprendem a desenvencilhar-se no meio do labirinto, a saltar e a contornar o obstáculo da mentira. Muito me surpreenderia que nos textos mais sagrados se nos não deparassem os mesmos subterfúgios. Lido dessa maneira, qualquer livro se torna indecifrável." (Marguerite Youcernar, A Obra ao Negro)

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