sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Somos fracos

"Era tal a nossa insufuciência, que bastava apenas tapar duas aberturas estreitíssimas para nos ser vedado o mundo dos sons, e mais duas estreitas passagens para provocar a noite. Viesse uma mordaça oprimir três desses canais, tão próximos uns dos outros que, sem dificuldade, se podem cobrir com a palma de uma mão, e seria o fim deste animal cuja existência depende de um sopro. Esse incómodo invólucro que ele tinha de lavar, de encher, de aquecer à lareira ou sob a pele de um animal morto, de deitar, todas as noites, como quem deita uma criança ou um ancião imbecil, servia, contra si, de refém a toda a natureza e, o que era pior, à sociedade dos homens. Através dessa carne e dessa pele é que ele talvez viesse a sofrer os horrores da tortura; e o depauperamento desses dotes é que viriam a impedi-lo de realizar convenientemente a ideia já esboçada." (Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro)

Sem comentários: