terça-feira, 3 de novembro de 2009

Humanismo

"Só há uma maneira de entender o humanismo antigo: é concebê-lo como uma tomada de partida num conflito mediático, isto é, como resistência dos livros contra o anfiteatro, e como oposição das leituras humanizadoras, propensas à resignação, instauradoras da memória, contra a ressaca da ebriedade e das sensações desumanizadoras dos estádios, arrebatadas de impaciência. O que os romanos educados chamavam 'humanitas', seria impensável sem a exigência de abstinência da cultura de massas bos teatros da ferocidade. Se, por acaso, o humanista se extraviasse entre a multidão vociferante, era só para constatar que também ele era um homem e, por o ser, também podia ser contaminado por essa tendência para a bestialidade. Logo regressava do teatro a casa, envergonhado pela sua involuntária participação em sensações infecciosas, e imediatamente se via obrigado a admitir que nada de humano lhe era alheio. Mas com isso também dizia a si próprio que a natureza humana consiste em eleger os media domesticadores para o desenvolvimento da própria natureza, e renunciar aos desinibidores. O sentido desta escolha de media reside em que o humanista devia cortar com o hábito da própria bestialidade potencial e distanciar-se da escalada desumanizadora da vociferante matilha do espectáculo." ( Peter Sloterdijk, Regras para o Parque Humano)

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