domingo, 25 de abril de 2010

Revolução dérmica

Uma extensa tira, muito magra, encostada à parede, único reduto de areia seca, acolhe uma multidão de revolucionários resistentes perante as insistentes ondas que, do mar, trazem inusitados objectos. A garganta pica-me. O frio, o calor, o frio, o ar do rio, a brisa da noite. Olho para o telemóvel. Não consigo ler. Transpiro. Adormeço e acordo. Penso nos movimentos sincopados. Olho para o mar. Duas mulheres gordas exibem orgulhosamente as banhas, os pneus... invejo-as. O meu corpo envelhece. Jovens rapazes musculados passeiam-se na areia e relembram-me a merda do tempo a passar. Tatuados. Calções de surfista. Telefono a um amigo e a outro e a outro. Lancho com o meu pai. Um pão de leite simples e um chá de limão, por causa da garganta. Na esplanada, os meus calções curtos são alvo de atenções alheias. Na bomba de gasolina também mas os desejos são outros. Em Lisboa, bebo outro chá de limão, na esplanada do jardim de S. Bento, ao pé da estátua de Leopoldo de Almeida: A Família. Com dois amigos, discutimos as preferências de uns e de outros e, hipoteticamente, ponderamos escolhas: "se fosses obrigado a escolher, foderias com o emplastro ou com o Hitler?" ou "se fosses obrigado a escolher foderias com o Saramago ou com a Agustina?", etc, etc... Uma canja de galinha com ovos e uma salada mista. Chocolates e rebuçados de mentol. A minha pele revela os benefícios do meu esforço.

Sem comentários: