quarta-feira, 21 de abril de 2010

Romance noir

"Amar um homem não é apenas deixar-me perturbar por alguns dos seus pormenores, que qualifico de nocturnos, porque em mim criam uma escuridão em que estremeço (os cabelos, os olhos, um sorriso, o polegar, a coxa, os pêlos, etc.), é obrigar esses pormenores a transformarem em sombra tudo quanto podem, desenvolver a sombra da sombra, portanto a espessura, multiplicar o seu domínio e povoá-lo de negrume. Não é apenas o corpo, com os seus ornatos, que me transtorna, nem os jogos de amor em si, mas o prolongamento de cada uma das suas qualidades eróticas. Ora estas qualidade terão de ser apenas aquilo em que se transformaram pelas aventuras vividas por aquele que delas exibe os estigmas, que patenteia os pormenores que eu creio descobrir o germe de tais aventuras. Assim, de cada zona de sombra, em cada rapaz, extraia eu a mais inquietante imagem para que a minha perturbação aumentasse, e de todas as zonas de sombra um universo nocturno onde se afundava o meu amante. É evidente que esse cujos pormenores abundam me atrai mais do que os outros. E eu, arrancando-lhes o que podem dar, prolongo-os em aventuras audiciosas, que são a prova da sua potência amorosa. Cada um dos meus amantes suscita um romance negro. São, pois, a elaboração de um cerimonial erótico, de uma acasalação por vezes muito prolongada, essas aventuras nocturnas e perigosas a que me deixo arrastar por heróis sombrios." (Jean Genet, Diário de um Ladrão)

Sem comentários: