quinta-feira, 27 de maio de 2010

O homem...

... que não conseguia esquecer. Podia ser o título de um livro de José Saramago. É o leit-motif de uma das peças da exposição "Para o cego no quarto escuro à procura do gato preto que não está lá", famosa citação Darwiniana. Saí de casa, cedo. Apanhei um autocarro, coisa inédita. Directo da Rua de S. Bento até ao Campo Pequeno. Atrás de mim, duas empregadas de limpeza falavam sobre detergentes, esfregonas, papel higiénico e sobre as colegas de trabalho. Um chocolate e uma meia de leite. Agarro num livro:

"-Tanro no trabalho como nos jogos, as nossas forças e os nossos gostos, aos sessenta anos, são o que eram aos dezassete. Os velhos, nos maus dias antigos, renunciavam, escondiam-se, entregavam-se à religião, passavam o seu tempo a ler e a pensar, a pensar!

(...)

- Presentemente, e eis o progresso, os velhos trabalham, os velhos copulam, os velhos não têm um instante, um momento para fugir ao prazer, para se sentarem e pensar, ou se alguma vez, por um desastroso acaso, uma tal falha no tempo se escancarasse na substância sólida das suas distracções, há sempre o soma, o delicioso soma, meio grama para uma folga de meio dia, um grama para um fim-de-semana, dois gramas para uma viagem ao sumptuoso Oriente, três para uma sombria eternidade na Lua. E, ao voltarem, encontram-se no outro lado da falha, em segurança sobre o solo firme das distracções e do trabalho quotidiano, indo de cinema perceptível em cinema perceptível, de mulher pnemática em mulher pneumática, de campo de golf electromangético em..." (Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo)

Os velhos, sempre os velhos. Os novos são velhos. Os velhos já não querem ser novos. Novos projectos para velhos hábitos. Novas ideias copiadas de de velhas histórias.

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