quarta-feira, 2 de junho de 2010

História da Arte

“O modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constitui-se a partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. Ainda que com alguns prenúncios no século XVIII, é só no século XIX que este modelo de racionalidade científica que admite variedade interna mas que se distingue e defende, por via de fronteiras ostensivas e ostensivamente policiadas, de duas formas de conhecimento não científico (e, portanto, irracional) potencialmente perturbadoras e intrusas: o senso comum e as chamadas humanidades ou estudos humanísticos (em que se incluíram, entre outros, os estudos históricos, filológicos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos).
Sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um modelo totalitário, na medida em que nega o carácter racional a todas as formas de conhecimento que se não pautarem pelos seus princípios espistemológicos e pelas suas regras metodológicas.” (Boaventura Sousa Santos, Um Discurso sobre as ciências, p. 10-11). É neste contexto de rigor que a disciplina da História da Arte afirma o seu nascimento enquanto ciência, enquanto forma de conhecimento objectiva e rigorosa, distanciando-se das marcações especulativas próprias da prática filosófica idealista. Com um passado pontuado por discursos de cariz exógeno – biografias ou contexto explicavam o conteúdo e as formas -, a História da Arte, a partir de contributos que recusando o idealismo e o romantismo, assumem um pendor neokantiano e definem um discurso que se pauta pela vontade de garantir um carácter científico, no âmbito do tal paradigma de racionalidade dominante, vindo da época das Luzes, e, ao mesmo tempo, sublinhando, paradoxalmente, o carácter único do seu objecto de estudo, reivindicando desde logo a autonomia da arte. É esta dialéctica entre modelo científico e autonomia da arte que define em traços largos a génese do estatuto disciplinar da história da arte, que acontece no contexto académico alemão, nomeadamente, na conhecida Escola de Viena, da qual partem diferentes desenvolvimentos que, ao longo do século XX, definirão muito daquilo que foi produzido com o nome de História da Arte, discutindo novos termos, novas metodologias, que pudessem manter este equilíbrio entre uma autonomia que se reconhece ao objecto artístico e a validade decorrente de um modus operandi que se quer objectivo. Assim, tal como nos diz a afirmação de Jürgen Habermas, há, no decorrer de um projecto de modernidade, formulado no período do Iluminismo, da razão iluminada do século XVIII, o esforço no desenvolvimento de “uma ciência objectiva, uma moralidade e leis universais e uma arte autónoma que se desenvolve de acodo com uma lógica interna”. Que lógica interna é esta? É aquilo que permite à arte, justamente, abdicar de explicações contextuais e biográficas na sua definição, é aquilo que lhe permite reivindicar a sua autonomia, e, no âmbito do Formalismo, corrente definida a partir da Escola de Viena, valorizar a forma em relação ao conteúdo. É assim que nas leituras sobre este modelo nos deparamos várias vezes com a expressão de que “a forma gera a forma”, ou seja, que a forma contém em si mesma a sua explicação ou explica-se através de si mesma pela forma, entidade que nos dá uma visão de um determinado período. O Formalismo está, por isso, intimamente relacionado com o desenvolvimento de um discurso científico na História da Arte, recusando a ideia que a arte é uma actividade espiritual e sublinhando o carácter formal como essencial para a sua compreensão.
“El Formalismo busca para la historia del arte como disciplina científica critérios de identidad que le sean próprios. Pretende definir una historia del arte que no se ala mera crónica de unos acontecimentos culturales, ligados a la historia política o social de las naciones, sino como la historia de un objeto próprio, cuya evolución depende, por tanto, de su próprio concepto. Concebir la obra de arte de forma autónoma implica hacer possible una historia interna y autónoma del arte” (Francisca Pérez Carrrño, El Formalismo y el desarrollo de la historia del arte, in Valeriano Bozal, Historia de las ideas estéticas y de las teorias artísticas contemporâneas, p. 256). Assim, de forma objectiva e, por isso mesmo científica, o objecto de estudo é o desenvolvimento da forma. Da Escola Formalista, destacam-se, por um lado, os nomes pioneiros de Konrad Fiedler que, juntamente com Adolf von Hildebrand y Hans von Marées, formou o primeiro círculo formalista, a partir do qual nascem as teorias da pura visualidade. Seguem-se os nomes de Alois Riegl (desenvolverá os conceitos de kunstwollen ou vontade artística e estudará a evolução de formas particulares, valorizando ornamentos, estilos, géneros artísticos e períodos da história da arte até então considerados menores) e Wölfflin (definirá um elaborado esquema de análise sobre a evolução dos estilos e das formas através de “conceitos fundamentais”, linear – pictórico, superfície – profundidade, forma aberta – forma fechada, múltiplo – unidade, e claro – indeterminado, que definiriam ou posicionaria, uma determinada forma entre o clássico e o barroco, chegando, no limite, a propor uma história da arte sem nome, reconhecendo desde logo que a visão tem uma história e é essa que é a tarefa principal da História da Arte), nesta primeira elaboração de um discurso que, como já referi, irá ter diferentes desenvolvimentos críticos, em vários contextos, ao longo do século XX.
“La forma es el principio de unidad y completud essencial a la obra de arte. En ella se expressa una determinada percepción de la natureza por el artista. Así pues, la obra es la expresíon de una visión de la naturaleza, visión que se concreta en una forma determinada. Todo en el arte debe subordinarse a esta forma: tanto la técnica y el material del lado objectivo como los intereses sentimentales o conceptuales, del lado del autor. Esta forma nace de una veradera visión interpretativa de la realidad, que configura el material visual dentro la obra” ((Francisca Pérez Carrrño, El Formalismo y el desarrollo de la historia del arte, in Valeriano Bozal, Historia de las ideas estéticas y de las teorias artísticas contemporâneas, p. 260).
É, no entanto, um pouco antes do Formalismo se definir como matriz ou proposta de conhecimento científico para a História da Arte, que encontramos noutro autor o sintoma de uma tensão: J. Burkhardt, uma das grandes referências da disciplina, é um historiador da arte e da cultura que não se revê de modo nenhum nas especulações e devaneios de muitas das abordagens assentes num pressuposto de autonomia firmado por uma liberdade subjectiva, especulativa e legitimada no quadro da estética romântica. Burckhardt combate ferozmente a herança daquilo que se designa como herança idealista de Hegel e que a estética romântica desenvolveu. De Hegel importa-lhe apenas o ramo historicista, sendo que para ele a História da Arte deve ter uma base de observação empírica e isto é devedor do pensamento hegeliano. Burkhardt será o formador da nova geração de historiadores de arte, os formalistas. Será este o historiador que chamará a atenção da disciplina que se começa a formar para uma série de questões que vemos reflectidas na frase de Habermmas. Reclama que o conhecimento da História da Arte deverá ter uma base empírica, de confronto com os objectos, tal como o cientista das ciências naturais. Mas o seu projecto é Cultural. Pretende a elaboração de um vasto mapa espiritual do mundo, respeitando a perspectiva histórica linear (também Hegeliana), numa lógica de encadeamento, progresso, lógica evolutiva. Ao mesmo tempo há o reclamar de uma autonomia para o objecto artístico que é estruturante da disciplina da História da Arte. O primeiro grande momento da História da Arte é um momento que tentará equilibrar estas duas vertentes no âmbito de um discurso científico: será o Formalismo da Escola de Viena que formulará uma primeira proposta teórica e metodológica para a disciplina, respeitando estes vectores. O discurso científico não pode condescender com as definições e categorias especulativas da Estética Idealista e romântica. O grande desafio da Escola de Viena é defender a disciplina da especulação e firmar um discurso científico respeitando a ideia de autonomia do objecto artístico. É o primeiro grande momento de maturação disciplinar. Uma equação que parecia impossível de resolução encontra neste contexto uma primeira proposta de equilíbrio: são factores exclusivamente endógenos que explicam as obras. A aproximação a Kant estabelece-se uma vez que para o autor alemão “em todas as belas artes o elemento essencial consiste na forma”. Este é contributo a partir do qual se estabelece eixo de reflexão. A forma gera a forma, a forma significa-se a si própria. A partir daqui o ecletismo metodológico desenvolve-se.

Pedro Faro
História da Arte
Fevereiro de 2009

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