segunda-feira, 19 de julho de 2010

Negritude

"O tecto é ondulante, quase, quase, estamos em África. Ripas de madeira curvadas numa lógica alternada entre curvas côncavas e convexas. As enormes aberturas laterais não filtram a luz que nos chega do exterior. É tarde mas ainda não é noite. As pessoas passam. Aqui e ali, um sinal de alarme, um grito continuado de uma criança, uma voz que sai de um altifalante, os passos de alguém que corre, que passa por mim. Estou sentado numa mesa de uma cafetaria, totalmente exposto aos outros que não olham para mim. Uso os meus óculos-de-sol. Um café com leite, um brownie e uma garrafa de água. Faço escala entre Santiaho de Compostela e Lisboa. Estou em Madrid, depois de dois dias a olhar para a modernidade africana, numa exposição que reflecte sobre os trânsitos estéticos que atravessam o Atlântico negro e que informam parte da arte produzida no século XX, na Europa, nos EUA, na América Latina e em África. Leio, alternadamente para não me chatear, "El Erotismo", de Gerorges Bataille, e "Breve historia del comissariado", entrevistas realizadas por Hans Ulrich Obrist a importantes e históricos "curators" internacionais. A crítica, a museologia, o alternativo... a vontade de comissariar. A pressão e a despressurização deixam-me desidratado. Estou com overdose de analgésicos. Please don't go. Quero comprar uns keds e uns sapatos de vela. Comprei várias alpercatas por 6 €. Adorava ter cabeça para usar um chapéu. O meu cabelo está curto mas cresce. É vaidoso. All is falling, all is failling. Quero praia. Estive na praia mas estava muito calor. A pele seca. Não vejo carroceiros. Procuros homens eróticos, violentos, activos, desagregadores ontológicos. Chupo um halls, daqueles muito frescos. Tenho a garganta seca e asma. Respiro. Expiro e inspiro. Numa pequena bolsa amarela, bombinhas, comprimidos, pastilhas, soro e desentupidor nasal. Estou entupido. Tenho o cérebro entupido. Penso em Lagartos. Desejo-o nu. O meu corpo não é o que nunca foi. A realidade é flácida e ilusoriamente disfarçada pela negritude dos desejos.

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