sábado, 9 de outubro de 2010

A minha tarde...

A militância contra a ordem estabelecida, contra a autoridade e contra a obediência, não leva, em última análise, igualmente, à obediência? Michael Hardt passou por Lisboa e deu uma conferência sobre a efectividade política da crítica. Hardt lê Foucault que lê Kant... uma pescadinha de rabo na boca! A comunicação foi bem articulada apesar das ferramentas teóricas constantemente solicitadas ao longo da intervenção deste autor, conhecido, sobretudo, por ter escrito com notável António Negri a obra "Império", serem exigentes.

Sim, este é um dos vários pensadores que estruturam o pensamento da actualidade e que nos desafiam para um combate contra a apatia, contra a passividade comportamental obediente à regra estabelecida, que nos desafiam a pensar e a agir. Blah, blah, blah... Ao longo de 1h30, Hardt referiu-se à pertinência do político na crítica, na arte e no pensamento, o político entendido como mandamento ou regra legitimadora da actividade intelectual ou artística, desde as lutas dos anos 60 e 70. Perceber a implicação do termo político é fundamental para acedermos à lógica que estrutura os vários discursos que têm proliferado. A crítica tem mandato para politizar. A alternativa a uma crítica que procura identificar (denunciar?) hierarquias seria uma crítica afirmativa. Se as pessoas soubessem a verdade isso levaria a uma transformação da ordem dominante? NO!

Assim Hardt, a partir da leitura dos últimos textos de Foucault (as conferências proferidas no Collège de France nos dois últimos anos da sua vida), problematiza a genealogia do "dizer a verdade" e a liberdade de discurso da Grécia Antiga, além de reflectir sobre o conceito de "esclarecimento" (iluminismo) kantiano enquanto momento de autonomia cognitiva e crítica, ou seja, passamos a ser capazes de falarmos por nós mesmos, escapando à autoridade alheia, à obediência. Crítica aka Iluminismo? A crítica enquanto acto de insubordinação? "Argumentem e critiquem o que quiserem, mas no final obedeçam" - dizia Frederico II a Kant. Importa questionar as estruturas do poder. Foucault tanto lê Kant como vai contra o próprio Kant. Esclarecimento implica autonomia. (Os papéis de Hardt andavam de um lado para o outro, tal como o seu pensamento, numa lógica coloquial que parecia quase improvisada mas aquilo cheirou-me a cena ensaiada... o tipo é uma brasa!). Não somos autónomos e ficamos subjugados aos intelectuais: aqui convoca as figuras Kantianas do Filósofo, do Médico e do Pastor (padre) - tentam gerar autonomia mas acabam por criar mais obediência (cega perante o seu saber). Razão crítica, razão prática e razão pura. Kant critica-se a si mesmo. O povo fica preso. A crítica serve para obstruir o povo de se autonomizar. Hardt mapeia a insatisfação de Foucault com a crítica. Foucault vai aos gregos da antiguidade (digo eu: os de agora também dariam um exemplo interessante... desobediência total, apesar da mentira!) buscar uma solução. Liberdade de discurso. E chama Péricles a esta sequência: o líder democrático é aquele capaz de dizer a verdade em público. E a seguir aparece o Sócrates (o da antiguidade, claro, apesar do nosso Sócrates corresponder de alguma forma ao que o outro Sócrates pensava sobre a democracia) e Platão e a relação com a vida. Dizer a verdade é um mote para a vida. Como num palco, a conferência continua através do contributo dos Cínicos (os da antiguidade) e a sua paradigmática "dog life". Os Cínicos provocam a sociedade através da exposição pública daquilo que cada um reservou para o foro privado. Atacam e mordem! Dogs Art? (juro que pensei no Oleg Kulik!). O escândalo enquanto ferramenta operativa? A arte tem um poder sobre a colectividade e o poder de configurar novas formas de vida (Hardt é um optimista, acredita num mundo melhor). A militância é fundamental para a construção de uma nova forma de vida que não será muito separada da actual. Pede para superarmos o platonismo do conhece-te a ti mesmo para uma formulação de teor mais colectivo. Mais do que aquilo que somos, devemos perceber o que podemos ser. Não obedecer mas reconhecer um mote para a vida (a pobreza dos Cínicos - ou franciscana - é um ponto de partida). Querer gerar pensamento é o início. How can we create ourselves a form of life?


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