terça-feira, 5 de outubro de 2010

Voltar aos livros

"Compreendo perfeitamente que sintas necessidade de repouso e que tenhas vontade de te agarrar de novo aos livros. Santo Deus, ainda tens vontade de reflectir, sempre tiveste necessidade de reflectir em montes de coisas, de olhar e de ver, de anotar medidas, impressões, observações que não abes como hás-de classificar. Deixa isso por conta dos arquivistas da polícia. Ainda não compreendeste que o mundo do pensamento está lixado e que a filosofia é pior que a bertillonagem. Vocês até me dão vontade de rir com a vossa angústia metafísca, é o cagaço que vos contrange, o medo da vida, o medo dos homens de acção, da acção, da desordem. Mas nem tudo é desordem, pá. São desordem os vegetais, os minerais e os animais; são desordem a multidão das raças humanas; são desordem a vida dos homens, o pensamento, a história, as batalhas, as invenções, o comércio, as artes; são desordem as teorias, as paixões, os sistemas. As coisas sempre se passaram assim. Por que diabo se haviam de lembrar de introduzir ordem nelas? Que ordem? O que é que vocês procuram? Não há verdade alguma. O que há é acção, acção que obedece a um milhão de móbeis diferentes, a acção efémera, acção que padece de todas as contigências possíveis e imaginárias, acção antagonista. A vida é o crime, o roubo, o ciúme, a fome, a mentira, o lixanço, a estupidez, as doenças, as erupções vulcânicas, os tremores de terra, montões de cadávares. O que é que tu podes fazer, pá? Não me digas que vais começar a pôr livros!..." (Blaise Cendrars, Moravagine)

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