terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Escamas

"(...) conta-se ainda que os marinheiros inebriados, alucinando a genitália da ilha dos amores e despossuídos do seu melhor juízo, se atiravam ao mar descobrindo tarde demais ser difícil a cópula com tais fêmeas, porque afinal tinham escamas e tudo o que aí era secreto, ou secretamente admitido entre os mamíferos, lhes era, desta feita, pouco familiar ou tanto quanto a sardinha (...)
Então, saudando a todos e tendo a certeza de que tudo terminará em rabo de peixe, granjeemos a boa ventura de tais náufragos e esperemos vir um dia a sofrer da mesma alucinação marítima; entrando em transe profundo, viajando por esse desconhecido assim revelado e inacessível, expresso em tudo o que se avista no horizonte: Kósmos Seirenes, mundo-sereia, ao mesmo tempor visível e invisível, submerso na espuma, prometendo o que não se pode cumprir, como uma miragem, ébrio, mas talvez por isso, ainda mais sedento"

(João Maria Gusmão & Pedro Paiva, O espírito da cabaça)

Sem comentários: