sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Escrever sem ver

"Acidentalmente, e por vezes à beira do acidente, acontece-me escrever sem ver. Não, sem dúvida, com os olhos fechados. Mas abertos e desorientados na noite; ou, pelo contrário, de dia, com os olhos fixos noutra coisa, olhando algures para outro lado, diante de mim, por exemplo, quando vou ao volante: rabisco então alguns traços nervosos com a mão direita, num papel preso ao painel de bordo ou caído ao pé de mim no assento. Algumas vezes, sempre sem ver, em cima do próprio volante. São anotações para não esquecer, grafites ilegíveis, dir-se-ia em seguida uma escrita cifrada.
O que é que se passa quando se escreve sem se ver? (...) a imagem esboça-se sem dúvida em mim." (Jacques Derrida, Memórias de Cego. O auto-retrato e outras ruínas)

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