terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Visível

"Arquivo da narrativa, a história escrita dá graças, como o farão todos os desenhos que mergulharão na narrativa. Na descendência gráfica, do livro ao desenho, trata-se menos de dizer o que é tal como é, de descrever ou de constatar o que se vê (percepção ou visão) do que de observar a lei para além da vista, de ordenar a verdade à dívida, de dar graças ao mesmo tempo ao dom e à falta (la faille), ao devido, à falha do «é preciso» («il faut»), seja ele o «é preciso» («il faut») do «é preciso ver» («il faut voir») ou de um «resta ver» («il reste à voir») que conota ao mesmo tempo a superabundância e a fraqueza (défaillance) do visível, o demasiado e o demasiado pouco, o excesso e a falência (faillite). O que guia a ponta gráfica, a caneta, o lápis ou o escapelo, é a observação respeitosa de um mandamento, o reconhecimento antes do conhecimento, a gratidão do receber antes de ver, a benção antes do saber". (Jacques Derrida, Memórias de Cego. O auto-retrato e outras ruínas)

Esfrego os olhos. Não vejo.

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