quarta-feira, 16 de março de 2011

Revistas de Arte

"Na capa dois ursos de Jeff Koons dizem adeus. A obra do artista norte-americano é evocativa - o número de Março da L+Arte é o último. Sete anos e 81 números depois, o grupo Entusiasmo Media (EM) põe fim a esta revista de arte, leilões e antiguidades. Motivo? Incapacidade de garantir o patrocínio necessário para manter a revista nas bancas.

"Sem um ou vários patrocínios anuais seria muito difícil à EM assegurar a continuidade", disse ao P2 Paula Brito Medori, 48 anos, directora da revista desde 2006. A saída do BPI e da CGD da lista de patrocinadores e a impossibilidade de os substituir devido à crise financeira que começou em 2008 tornou este desfecho inevitável. "Tentei sensibilizar potenciais patrocinadores a não deixarem desaparecer a única revista de arte portuguesa. Não tive muita sorte..."

A L+Arte junta-se, assim, à lista de revistas de arte que nos últimos 15 anos deixaram de ser publicadas em Portugal, com destaque para a Colóquio Artes (Gulbenkian, 1971-1996), a Artes e Leilões (que ressurgiu), a Pangloss e a Arte Ibérica. As razões que levam ao desaparecimento destas revistas prendem-se sobretudo com a relação que mantêm com os anunciantes e com as próprias instituições culturais. Os primeiros retiram-se em períodos de crise, as segundas não perceberam ainda que papel podem ter estas publicações na consolidação do meio artístico, resumem os curadores e historiadores ouvidos pelo P2.

Anunciantes-âncora

José Pedro Paço d"Arcos, director da Artes & Leilões, uma publicação mensal especializada, mas de temática mais abrangente, lamenta o fim da L+Arte. Apontando a "enorme fragilidade" que decorre de "depender esmagadoramente dos anunciantes", Paço d"Arcos explica ainda a falência destes projectos com "a inexistência de uma massa crítica de leitores". Para o director da Artes & Leilões, fundada em 1989, fechada em meados dos anos 90 e reaberta em 2007, "não há mais de três mil pessoas em Portugal que se interessem por uma revista de artes pura e dura". Desses, apenas 500 a mil a compram sempre. "A publicidade e os patrocínios cobrem 80 a 90 por cento dos custos."

Mas alargar o naipe de temas como faz a Artes & Leilões pode afastar os leitores especializados, alerta o curador Pedro Lapa. "Falta um público suficientemente alargado para este tipo de publicações, mas alargar a outros temas não é a solução", diz. Para o historiador de arte, que foi director do Museu do Chiado, a combinação de temas da L+Arte era "adequada ao país", embora a junção da arte contemporânea ao universo de leilões e antiquários pudesse não agradar a todos.

Raquel Henriques da Silva discorda. Mais optimista, a ex-directora do Instituto Português de Museus acredita que em Portugal há público para uma revista como a L+Arte e que foi a publicidade que falhou. "A estratégia de pôr todos os ovos do mecenato no mesmo cesto não foi a melhor." Combinar o mercado com a arte era uma das suas mais-valias: "A abrangência aos leilões e ao antiquariado fazia com que chegasse a mais pessoas."

Com o fim da revista é a relação das pessoas com os promotores culturais que sai prejudicada, diz o historiador de arte Joaquim Caetano. "A cultura tem cada vez menos visibilidade nos jornais, que têm cada vez menos crítica de exposições", diz.

A área da crítica era, também para Delfim Sardo, curador que criou a revista de arte contemporânea Pangloss (2000-2003), uma das mais-valias. "Era praticamente o único espaço que existia para a crítica. Ela está tão mitigada nos jornais que não cumpre a sua função, que é a de ser formativa e estabelecer critério."

Projecto bem sucedido

Para Sardo, Caetano e Henriques da Silva, o fim da L+Arte não é um fracasso, nem reflexo da impossibilidade de o mercado manter uma publicação do género. "Não sei se as revistas de arte em Portugal não vingam... A Arte Ibérica e a L+Arte publicaram 80 números, o que não é assim tão mau. É claro que nenhuma delas é a Gazette des Beaux-Arts [fundada em 1859], mas foram projectos sólidos", diz Caetano.

O projecto foi "excepcionalmente bem sucedido", acrescenta Henriques da Silva, colaboradora da revista desde 2006. "Mas é frustrante que acabe, quando estava claramente a crescer em qualidade."

Para Sardo, o que falhou foi a publicidade e a relação da L+Arte com as instituições culturais. "O meio artístico prefere anunciar em jornais generalistas. As galerias, os museus e outras instituições culturais mostram pouca visão", critica. "Não percebem que têm a responsabilidade de anunciar neste tipo de publicação, que é fundamental para a criação de um meio artístico", conclui. "

in Lucinda Canelas, Público, 16 Março, 2011 (http://jornal.publico.pt/noticia/16-03-2011/portugal-tem-espaco-para-as-revistas-de-arte-21561148.htm)

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