terça-feira, 12 de abril de 2011

Century mood:

Não, eu não sou de ninguém contemporâneo, / para uma honra tal não estou pronto. / E que nojo me provoca um tal homónimo, / dizer que não fui eu, foi o outro. / Duas sonolentas maçãs o século-rei ostenta / e magnífica boca de barro, / mas, moribundo, à mão enlanguescente / do filho a envelhecer se agarra. / A compasso do século ergui também as pálpebras / doentias – duas maçãs grandes, / contavam-me histórias de humanos pleitos inflamados / os rios largos e retumbantes. / Há cem anos branquejava com suas travesseiras / uma cama leve e desdobrável, / e estirou-se estranho o corpo de barro, a primeira / embriaguez do século findava. / Bem no meio da marcha tão rangente do mundo, / como é levíssima esta cama! / E pois não podemos forjar um outro do fumo, / com este século convivamos. / Num quarto quente, ou numa caravana, nas tendas/ morre o século – e por último / sobre hóstia córnea duas maçãs sonolentas resplandecem num fogo de pluma. (Ossip Mandelstam)

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